Ponta Porã (MS): a cidade que fala três idiomas

Foto: Elis Regina/ EV Imagens

Se tropeçar em Ponta Porã pode cair no Paraguai, se atravessar a rua, pode voltar ao Brasil. Se quiser, pode estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Com ruas largas e compridas, Ponta Porã, apesar da aparência de cidade pequena, é maior do que parece. Se eu me perder, posso ser obrigada a pedir ajuda em castelhano, pois a fronteira pode estar em qualquer esquina. À noite, do alto, é possível avistar a linha divisória que a iluminação da cidade brasileira demarca. O efeito luminoso avança por ruas distantes e se perde no horizonte. Enquanto observo Pedro Juan Caballero, carros de som mesclam ritmos brasileiros e caribeños, celebrando outra forma de mistura.

Do outro lado da fronteira, em Pedro Juan Caballero, o movimento do comércio começa cedo. Muitas lojas são modestas e algumas pertencem a imigrantes coreanos, que agora dominam os negócios de importação da China. Línguas distantes, como o coreano, aumentam a zoeira das ruas. Os turistas pechincham. Meninos insistem em vender pilhas e lanternas falsificadas. A fronteira se agita.

Leio em A formação do território turístico de Pedro Juán Caballero, de Patrícia Cristina Statella Martins, que a vocação comercial da cidade paraguaia surgiu no final do século XIX, quando ela se torna ponto de pouso para as caravanas que transportavam erva-mate até Concepción, no Paraguai. Com o fim da exportação desta “especiaria”, a região entrou em decadência. Só a partir dos anos 1960, o comércio de produtos importados se fortaleceu, graças às facilidades fiscais e a uma vizinhança afoita por preços baixos.

Busco um pouco mais da história da fronteira. O limite entre os países foi firmado em 1494, pelo Tratado de Tordesilhas, que dividiu o mundo entre Espanha e Portugal. Em 1777, a primeira linha limite entre o Brasil e Paraguai é estabelecida. Mas a fronteira tem uma história sangrenta. Em 1865, o exército paraguaio, liderado por Solano Lopez, invade o Brasil, na esperança de conseguir uma saída para o oceano. Lopez conquista a província brasileira do Mato Grosso e invade também a Argentina. Começa, então, a Guerra do Paraguai (1864-1870), que quase apaga o nome Paraguai do mapa. Cerca de 300 mil paraguaios e 50 mil brasileiros morreram nos combates. Após ser derrotado pela Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), o Paraguai se viu obrigado a dividir parte de suas terras com os vencedores.